terça-feira, 6 de novembro de 2012

Livro: Cronicas de Iaça, o mundo além do olho d'agua


QUATRO
A FANTASIA TORNA-SE REAL

Katú ficou desacordado por um longo tempo. Sonhou com a mãe e o pai, e o convívio que trazia grande alegria. Ao acordar percebeu que estava deitado em uma rede de dormir, cercado por índios, e mais a frente sentada no chão batido de terra a jovem que pensava ser um sonho ou delírio momentos atrás. De alguma forma ele se sentia atraído por ela, como se a conhecesse.
Olhou para o teto, e viu que este, estava coberto de palhas, folhas e materiais da terra. Grandes varas reforçavam a estrutura. No seu interior, papagaios, macacos, tatus, patos e vários passarinhos espalhados estavam livres sem correntes ou gaiolas.
Percebeu então que estava numa maloca. Lembrou dos estudos que fazia na escola sobre as tribos indígenas e do contato que teve com vários em feiras de estudo. Virou-se para um dos lados e reconheceu rapidamente o tipiti, instrumento utilizado na feitura do tucupi, bebida de aroma e gosto forte. O tucupi é misturado com outras iguarias que dão ânimo a quem as toma.
Curioso e com a voz restabelecida, inclinou-se dirigindo uma pergunta a jovem índia da maloca onde ele se encontrava - Onde estou? Que lugar é este?
Os olhos da jovem são vibrantes e intensos, sua respiração controlada e a resposta mais ainda - Cari, você se encontra na aldeia desafortunada de Óka e esta é a maloca central - explicou a jovem continuando em seguida - Aqui nesta porção de terra cercada de verde o mal chegou, invadindo de temor os corações de muitos.
Os habitantes desta localidade aparentavam ter um sentimento de temor estampado em suas faces, viviam sempre com as lanças em punho, até terem confiança nos estrangeiros.
Ainda muito confuso com a situação, o jovem não consegue compreender as palavras da índia e insiste em mais questões - Aldeia? Óka? Que brincadeira é essa?
–– Eu não entendo, você não sabe onde está? - rebateu a índia.
–– Não, por favor... Explique - expôs Katú para a jovem.
–– Meu nome é Amiar, você se encontra no Mundo de Iaça, que outrora foi ponte segura para o seu Mundo através das águas. Hoje paira sobre ele a mão fria do curupira Abaçaí, senhor dos exércitos da noite - a índia fez uma pausa reforçando a respiração e continuou - Nossa aldeia Óka, é uma das várias que sofrem com o mal do temível Mapinguari, monstro comedor de gente enviado pelo curupira.
O Mapinguari é um gigante de mais de três metros de altura, pêlos avermelhados, pele grossa, com um olho só e uma boca enorme no meio da barriga. Suas garras destroçam árvores e seus músculos levantam pedras de mais de uma tonelada. Sempre que o Mapinguari está próximo, a terra treme.
Um calafrio percorre o escoteiro, um frio interno agonizante demais para ser descrito. É inacreditável, pensa ele. Devo estar sonhando. Com certeza é uma daquelas histórias que imagino e neste momento devo estar dormindo, logo vou acordar e voltar a ajudar minha mãe.
Mesmo com tamanha confusão mental e ainda um pouco zonzo, Katú resolveu continuar indagando a jovem índia.
Com olhos arregalados ele perguntou - Como cheguei aqui? Eu estava diante de uma luz, começou pequena, mas depois não conseguir ver mais nada, e agora estou diante de você - declarou, lembrando da cena que vivera, e em seguida repetiu a pergunta - Como cheguei aqui?
–– Você é um dos poucos Caris que conseguem entrar no clarão que une sua existência a nossa, e por motivos que só os Grandes Espíritos conhecem, você foi chamado para Iaça - explicou Amiar.
Katú começou a perceber que tudo aquilo era real, tudo que lhe havia acontecido, desde o olho d'água até a maloca e mesmo a índia a sua frente eram indícios de que não poderia estar sonhando. Como poderia um sonho ser tão perfeito assim? A sensação de tontura que ainda carregava, as palavras da índia, os animais livres a sua volta, tudo isso era forte demais para ser um sonho.
Muito confuso e curioso Katú questiona novamente - Meu nome é Eduardo Katú e não Cari. Estava acampando, sou um escoteiro e porque insiste em me chamar assim?
Mesmo que as coisas começassem a fazer sentido, aquele ainda era um mundo estranho para Katú, ao mesmo tempo as palavras vindas de Amiar eram familiares, só não conseguia saber de onde vinha tal familiaridade. No íntimo do jovem escoteiro, algo o fazia sentir a tranqüilidade de que tudo aquilo já havia feito parte dele.
Amiar levantando-se caminhou alguns passos em direção ao escoteiro, olhou firmemente com os lindos olhos cor do mais acalorado pôr-do-sol e disse: - Todos os que adentram o nosso mundo são chamados assim, hoje vários como você, estão aqui dividindo Iaça conosco. Antes eles eram poucos, hoje formam uma nação, mas há muito que não temos mais visitantes, você é o último que tivemos a oportunidade de ver chegar através da luz.
Os homens não descendentes do Mundo de Iaça são chamados de Caris, os habitantes lhes deram esse nome devido a coloração de suas peles, muitos em vários aspectos diferentes dos índios do local e dos demais habitantes naturais de Iaça.
Os Caris também se destacam em habilidade e engenhosidade na criação de veículos de transporte, além de serem ótimos navegadores.
A cabeça de Katú balançava como se não acreditasse em tudo aquilo. Amiar tomou-lhe a mão, e puxando-o, caminharam para fora da maloca com a intenção de mostrar algo a ele.
Katú olhou para trás e pôde ver que a casa do índio devia ter mais ou menos cinqüenta metros de comprimento, uma altura estimada de seis metros e a entrada de cerca de cinco metros de comprimento. Era uma construção soberba e cheia de elementos naturais a sua volta. Sem janelas nas laterais, a maloca possuía aberturas em suas extremidades, muita rústica a estrutura se encaixava bem no modo de vida do povo de Óka.
Do lado de fora, um enorme tronco com imagens de pessoas alegres celebrando ao que parecia ser e uma gravidez. Amiar percebendo que Katú olhava insistentemente para o desenho, falou - Aquela é minha mãe e a pintura na barriga dela sou eu.
Em Óka, cada nascimento era marcado por uma pintura em uma tora que era fincada na entrada da maloca a qual a criança pertencia. A pintura era feita com sangue do animal caçado pelo pai guerreiro. Amiar era por direito líder daquela aldeia, em sua costa pairava a responsabilidade de muitos, por isso o seu nascimento foi registrado na maloca central de Óka, os seus pais eram os lideres.
Katú envolvido com tudo aquilo, baixou a cabeça por alguns instantes, depois tirou a atenção da maloca, levantando o olhar para o alto, viu que Amiar apontava com o dedo para o céu indicando que Katú deveria olhar.
Tal foi a surpresa do escoteiro quando percebeu que no céu havia uma divisão de escuro e claro ao longe. De um lado o sol brilhava formoso e imponente e do outro a lua clareava o véu escuro. A visão parecia uma fantasia feita por um profissional da área de efeitos especiais para alguns desses filmes que rendem milhões de bilheteria, acreditar seria o passo seguinte para Katú, o que não era tarefa fácil.
Ele olhava, mas não acreditava. Era difícil crer naquela cena. Para o escoteiro aquilo não poderia estar acontecendo, voltou a duvidar novamente - Como isso é possível? - aquela cena reforçava para ele a idéia de que tudo aquilo era um sonho novamente.
–– Em nosso mundo, Coaraci, o Sol e Jaci, a Lua, convivem em harmonia, trocam de lugar sempre em perfeita sincronia, onde cada um assume seu posto diante das necessidades de Iaça - explicou Amiar.
Em Iaça os elementos da terra, convivem em perfeita sincronia, provendo o alimento e a energia no local certo onde o povo precisa. Árvores dão frutos com Coaraci, e Jaci ajuda pescadores de todos os cantos a ter a melhor rede de suas vidas. O vento sopra formoso e na medida certa, a chuva que cai em abundância, várias vezes se faz presente para o fim dos desertos de toda ordem.
Esse equilíbrio era um mistério para os povos de Iaça. No início dos tempos, onde a vida começava a pulsar, Coaraci e Jaci contribuíram para que a natureza ganhasse força e vibração. Dizem que os grandes índios conheciam bem o que acontecia, mas isso é mais lenda do que realidade. Hoje os mais novos tendem a confiar mais em seu julgamento do que em histórias perdidas no tempo.
Katú chegou a terra de Iaça em um momento delicado, a harmonia que tanto era vivenciada, estava em desequilíbrio. Os Ókanos buscaram dos mais velhos a informação sobre o que estava acontecendo, mas infelizmente não obtiveram a resposta que precisavam.
–– No seu Mundo, Sol e Lua estão separados, isto ocorreu há muito tempo. O afastamento é prejudicial, pois cria o clima que mais contribui para destruição. O egoísmo que gera o conflito pelas coisas limitadas é criador de separação que se manifesta até mesmo nas coisas da vida, e aqui esse egoísmo parece que chegou - acrescentou Amiar.
–– Como assim chegou? - perguntou Katú.
–– Jaci e Coaraci parecem não estar se entendendo. A mudança entre eles ocorre de maneira quase imperceptível por nós - explicou Amiar.
Amiar manifestava preocupação com o equilíbrio. Jaci parecia estar em divergências com Coaraci. Iaça há muito tinha a harmonia de seus ventos, chuva, raio de Sol e Lua. Naquele instante Iaça apresentava sofrimento, os índios podiam senti-la chorando, a terra pedia socorro. A interferência dos Caris na paisagem alterou drasticamente a rotina dos seres do mundo.
Alguns anciões de Óka acreditavam que os Caris eram responsáveis pelo que estava acontecendo também, mas não gostavam de ter relações mais próximas com eles, preferiam meditar sobre a natureza ao se deslocarem para dialogar.
Katú franziu a testa com extrema curiosidade e com a voz em tom de desconfiança indagou - Acho estranho você saber tanto sobre o meu Mundo.
Amiar esperta como ela só, tratou de responder com energia a pergunta de Katú - Eu já o visitei várias vezes. Confesso que cada vez que viajava até o seu Mundo, mais tristeza cultivava dentro de mim pelo que vocês fizeram, pela falta de cuidado dos povos da Terra com a natureza.
–– Nisso você tem razão! - exclamou Katú.
–– Ainda tem mais, o recurso mais sagrado para nós e desperdiçado por vocês - disse Amiar.
–– E qual seria esse recurso? - perguntou Katú.
–– A água, essência da vida, de onde todos nós viemos, é dela a ligação que temos com tudo que esta em nossa volta, aqui chamamos a água de I - concluiu Amiar.
! - exclamou Katú - Curioso como chamam a água neste Mundo.
"No início é difícil, mas com o tempo você se acostuma." Eduardo Katú quando viu pela primeira vez a Lua e o Sol dividindo o espaço do céu de Iaça.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Livro:Crônicas de Iaça , o mundo além do olho d'água. (J.J. Alves)


DOIS


UM ESCOTEIRO NA CIDADE

acampamento era normal na vida deste escoteiro. Desde cedo Katú sentiu vontade de estar mais perto da natureza, afinal, ele é um garoto que vive na Grande Belém, cidade que mesmo repleta de árvores, não tinha mais o verde de tempos outrora, e nem o vigor dos anos áureos da borracha, período em que houve grande prosperidade e a riqueza circulava entre seus habitantes.
Hoje, enormes prédios, condomínios fechados e carros invadem a paisagem da cidade morena, interferindo em sua beleza primitiva, o antigo e o novo tentam conviver neste novo cenário.
Como conseqüência da mudança das árvores e campos verdes por prédios e asfalto, a cidade experimentava chuvas mais intensas do que de costume, extremo calor e umidade geradora de muito incômodo.
As áreas verdes de lazer foram substituídas por enormes estacionamentos e shoppings. Devido o aumento dos carros na cidade, o estresse passou a fazer parte da vida dos motoristas e pedestres. Alguns brigavam com o menor deslize do outro, saiam de onde estavam e entoavam gritos de revolta como se isso fosse resolver alguma coisa.
Mesmo com um cenário em mudança, Belém possui áreas verdes enormes que tentam preservar a fauna e a flora. Algumas dessas áreas são preservadas com o esforço da população. Um dos espaços é um verdadeiro pedaço da Amazônia dentro da cidade, conhecido como Museu Emílio Goeldi. Este, fundado em 1866. Sua história é coberta de personagens importantes na busca pela preservação do meio-ambiente.
Ele abriga fauna e flora da Amazônia, favorece o contato do visitante com o rico acervo que possui. Eduardo Katú sempre que podia gastava um pouco do que ganhava para entrar e se conectar com tudo que o Museu podia oferecer. Cada nova visita era para Katú como se fosse a primeira. Tudo tinha um ar diferente, até o senhor Marcos Cardoso, o fotógrafo do local que ganhava alguns trocados, capturando imagens das crianças com a máquina companheira de profissão.
Katú quando criança, não teve a oportunidade de ter sua foto sentado no cavalinho ou mesmo em um carrinho, também pudera, este serviço era pago por aqueles que tinham dinheiro suficiente para gastar com esse tipo de prazer, o que Katú fazia era se imaginar em meio aquele momento recebendo a fotografia.
O senhor Marcus Cardoso sempre acenava para o jovem Katú quando este fazia as suas visitas ilustres ao Museu para deixá-lo à vontade. Para Marcus Cardoso, o jovem tinha algo de diferente dos outros garotos, um interesse mais profundo do que a maioria dos adolescentes que visitam o Museu.
Já sobre a família de Katú, a maior parte morava distante de Belém. Certa vez, a tia Marieta Silva, prima distante do Pai de Katú, quando veio a Belém, o presenteou com um vídeo-game. Antes ela fez um trato com ele - Se você passar direto este ano, sem precisar de recuperação na escola, eu darei a você um vídeo-game - disse ela.
— Katú cumpriu com a promessa, recebeu o prêmio glorioso com o boletim na mão, indicando as várias notas azuis escritas à caneta pela secretária da escola.
Promessa cumprida! - disse ele com o boletim na mão.
— Deixe-me ver - pediu a tia Marieta - É mesmo, parece autêntico - completou.
–– Graças a Deus não preciso mandar meu filho estudar, ele já sabe das suas obrigações - disse com voz alta em tom de orgulho a mãe Mariana.
Então depois de ganhar o tão sonhado vídeo-game, experimentou o jogo eletrônico como qualquer adolescente, afinal nasceu no auge da tecnologia, mas depois de certo tempo achava mais interessante mesmo, a emoção real. Chegou à conclusão que gostava mesmo era de correr, pois o seu suor fazia parte de sua aventura, caso contrário,não haveria aventura.
Katú também sentia enorme tristeza todas as noites ao fechar a janela de seu quarto para dormir. Havia um vazio, como se algo em sua vida estivesse faltando. Uma espécie de nostalgia de um tempo perdido em sua mente que ele não conseguia acessar.
Vivia com os pais, sempre experimentara o amor que vinha expresso nas várias oportunidades de convivência e exemplo que tinha deles. A mãe Mariana Katú, sempre atenciosa, fazia questão que o menino estudasse, e se necessário, sacrificaria-se pelo filho.
Mariana é uma mulher vigorosa, de pele morena e olhos bem escuros. Relativamente baixinha de certa forma, sua estatura de um metro e cinqüenta e dois centímetros não a 
deixava entrar em um time de vôlei ou basquete, porém, sua destreza com as mãos a permitia ganhar a vida com seus dotes culinários.
Eduardo Katú conseguia reconhecer o esforço da mãe, sempre atencioso também diante dos sentimentos dela, fazia questão de contribuir no que fosse possível para tomar a vida da família mais feliz, e se isso incluísse trabalhar até tarde, ele o faria.
Em relação ao pai, o senhor Miguel Katú, o idolatrava, era para Katú uma espécie de super-herói sem capa nem máscara. Ele sempre foi um pai dedicado e sua a principal virtude era a honestidade. Trabalhava duro, mas há muito não conseguia emprego fixo. Nas horas vagas aproveitava para imaginar histórias com o filho Katú. Os dois viviam aventuras que você leitor, jamais sonhou.
Miguel é um homem de um metro e setenta centímetros e magro, porém, com a musculatura definida no corpo. Na adolescência, Miguel era um estivador, trabalhava no porto de Belém, carregando grande quantidade de peso. Aquela atividade, de certa forma, modificou o jeito com que Miguel percebia a vida.
No entanto, sempre foi um homem honesto, disposto a trabalhar por aquilo que acreditava. Esses princípios, Miguel repassou ao filho Katú, através de suas experiências de vida.
Às vezes Katú ficava sempre triste com a situação financeira deles. Seu pai, por exemplo, realizava diversos consertos em casas de família, ganhava um dinheiro aqui, outro ali. Sua mãe não conseguia emprego convencional, devido à baixa escolaridade, o que a obrigou a montar uma barraca nas ruas do comércio de Belém, para tentar levar um complemento a mais na renda financeira da família.
Apesar de imensa dificuldade que passavam, a família dos Katú buscava constantemente ser honesta e sincera frente aos desafios do Mundo. Venciam os obstáculos com a força de viver e pela união entre si.
A família era pouco numerosa, raramente ele encontrava os primos e outros parentes para trocar idéias e saber de suas vidas. Os momentos que a família se reunia, geralmente eram em aniversários, isso quando eram festejados.
A vida de Katú começou a mudar quando ele decidiu entrar para o Escotismo. Sua mãe apoiou desde o início, já o seu pai, ficou preocupado com a possibilidade de o único filho ter que acampar em locais distantes, mesmo assim com uma boa conversa, Mariana o convencera a permitir que Katú realizasse seu desejo.
Para entrar no Escotismo eram necessários vários itens. Entre eles existia o uniforme, este foi costurado sobre medida para o jovem, e grande parte do dinheiro para pagá-lo, foi das economias que a família possuía. A mãe acreditava que o Escotismo fosse ajudar no encaminhamento de seu filho diante da vida. No fundo Mariana tinha grande medo que Katú se tornasse um marginal e acabasse perdendo a vida jovem demais.
Completando o investimento, um escoteiro veste além da bermuda e camisa, um lindo lenço em formato triangular, preso por um anel de couro que envolve o pescoço, um cinto com o emblema da flor-de-lis, símbolo escoteiro, além do par de sapatos preto e as meias cinzas que completam o visual.
O que fazia com que Eduardo Katú tivesse esperanças em um futuro melhor eram as histórias que ele e o pai imaginavam. Muitas acabavam copiadas em cadernos, ilustradas por diversos desenhos repassados para folhas em branco, Katú sonhava em publicá-las algum dia para compartilhar com outros jovens as alegrias que sentia em suas aventuras.
Numa dessas conversas sobre contos, Mariana ficou deslumbrada com o diálogo entre pai e filho, tanto que não conseguia se concentrar para preparar o jantar com o pouco que tinham na despensa.
–– Katú, cuide bem desses desenhos - disse Miguel.
–– Pode deixar comigo pai. Sempre guardo os desenhos nas minhas intermináveis caixas de sapato que recolho das lojas de magazine - respondeu Katú.
–– Meu Deus! - exclamou Mariana.
–– O que foi mãe? - perguntou Katú.
–– Vocês viajam mesmo nessas histórias - disse Mariana quase babando de tanto orgulho dos homens da casa - Espero vê-las publicadas algum dia - completou.
–– Se depender de mim será publicado - disse Miguel. Katú correu para abraçar a mãe. Costumava apertar a barriga de Mariana com tanto vigor, a ponto de faltar ar, de tão forte que era o abraço.
–– Eu também amo você - disse Mariana - para o filho depois de receber tamanho carinho e energia.

domingo, 28 de outubro de 2012

Crônicas de Iaça , o mundo além do olho d'água. (J.J. Alves)


Crônica de Iaça, é uma leitura que compartilho com meus alunos e todos que se interessam, por simples prazer, é um meio que encontrei de estar com eles pelo menos uma vez por dia, pois postarei um capítulo por dia. Um beijo a todos.
Livro:Crônicas de Iaça , o mundo além do olho d'água. (J.J. Alves)

UM

O JOVEM AVENTUREIRO

Em nossa volta, encontramos tudo que necessitamos para viver, os rios estão repletos de alimentos, árvores que nos dão frutos saborosos com folhas que imprimem do verde mais claro ao mais escuro. Passarinhos de todas as espécies cantam de graça sem receber aplausos, Sol e Lua fornecem energia e brilho, sem nos cobrar um centavo por isso.
A natureza está aí, desde antes do nascimento da humanidade, nos fornecendo tudo, do alimento à energia que necessitamos para viver. Ela pede apenas que possamos cuidar
de suas riquezas, no entanto, o que parece, é que não estamos sendo muito competentes nesta tarefa.
Envenenamos nossos rios e derrubamos árvores centenárias. Diversas espécies de animais que viviam a mais tempo neste solo do que nós e que hoje já não existem mais. O século XX foi particularmente o da evolução tecnológica pela busca de recursos retirados das entranhas da Terra para o aumento do conforto, mas a que preço?
Mesmo diante de um cenário que inspira cautela, a esperança ainda não teve a sua chama apagada. Um jovem em especial, com o coração sensível ao Mundo em que vive, vai despertar e tentar ajudá-lo da melhor maneira possível, buscando entender seu papel no cenário atual.
Este rapaz chama-se Eduardo Katú, ele é um desses jovens de quinze anos, ávidos por aventuras. Entrou no Escotismo desde cedo, queria acampar, viver perigos, ficar acordado até tarde e conhecer os mistérios da mata e, sobretudo, cuidar das coisas da natureza, buscando a essência de tudo que é vivo.
Uma simples formiga tem um significado grandioso para Katú, um bicho preguiça, animal dócil encontrado na Amazônia, tem sua atenção especial e respeito. Tudo à volta do jovem possui importância, e se está lá deve haver um motivo.
No Escotismo, há mandamentos, isto é, normas que buscam levar o indivíduo comum a se tornar um verdadeiro cidadão, integrado com o meio-ambiente, respeitando até os menores seres da criação, nesses princípios Katú fora criado.
Com a idade juvenil vibrante, é um excelente corredor, suas pernas longas conferem passadas dignas de um velocista campeão em plena forma, e são muito úteis quando o assunto é correr para embarcar em um ônibus.
O cabelo escuro extremamente fino dava trabalho quando começava a crescer. Katú costumava dizer que o cabelo parecia uma farofa quando estava grande, por isso, sempre que tinha alguns trocados corria para a barbearia do senhor Bigode, onde tratava de tirar o excesso do cabelo fino.
O senhor Bigode cobrava relativamente pouco, mas o freguês como ele mesmo dizia, não tinha direito a lavagem na cabeça, nem talco para evitar as assaduras depois de passar a navalha no pescoço.
A barbearia do senhor Bigode é um lugar freqüentado pelos trabalhadores da feira do Bairro do Telégrafo sem fio, bairro antigo da cidade de Belém. Na barbearia, além das cadeiras antigas de barbeiro, há os intermináveis pôsteres de lindas mulheres grudados nas paredes.
As paredes estavam cheias de manchas das goteiras, o piso precisando de uma nova lajota e a porta de madeira velha, bastante castigada pelo tempo, eram detalhes que Katú sempre observava quando ia à barbearia. O seu Bigode sempre repetia - O que ganho não favorece uma reforma, então é melhor deixar desse jeito! - dizia ele, sempre que um freguês reclamava do estado da barbearia - Veio aqui para cortar o cabelo ou apreciar a barbearia - completava.
O olhar de Eduardo Katú é uma mistura de juventude com um mistério profundo de um homem mais velho. Seus olhos castanhos claro vinham do pai e a pele morena herança da mãe, já a altura e as longas pernas suspeitava-se que eram dos avôs.
Adorava contar sobre fantasias de seres poderosos e defensores da natureza em suas batalhas contra o mal. Certa vez em uma roda de conversa com os amigos da rua dos 18, local onde morava, Katú contou uma das suas incríveis histórias sobre um índio poderoso que enfrentava criaturas místicas e uma linda mulher que encantava a todos com sua beleza.
Os amigos ficavam com os olhos sem piscar um segundo sequer para acompanhar passo a passo os diversos movimentos que acompanhavam as palavras que davam vida aos contos de aventura.
Com tanto vigor, o jovem sonhava em encontrar as criaturas que tanto buscava nos livros de lendas sobre a Amazônia e tantas outras culturas. Pensava em ajudar o curupira, um ser encantado com pele verde, longos cabelos, olhos brilhantes e com os pés virados para trás, em sua batalha constante de preservar a fauna e a flora da Terra. Katú não aceitava quando lhe diziam que tudo isso era apenas fantasia. Em seu coração acreditava que toda a fantasia tinha um fundo de verdade, e essa verdade o fazia continuar acreditando.
Um dia, ele encontrou tal mundo, teve a oportunidade de ver como os sonhos faziam sentido, e como a imaginação podia ser um portal para aventuras sem igual com um universo de possibilidades.
Certa vez em um de seus acampamentos, o jovem descobre que, em certos locais escondidos pelas matas é possível entrar em um mundo onde a razão é desafiada. Um mundo onde a Terra é repleta de seres lendários, cheia de personagens poderosos, objetos encantados e uma sabedoria que provém dos índios em repleta harmonia com a natureza.
O melhor de tudo isso, é que alguns visitantes não envelhecem neste lugar, as leis temporais do nosso Mundo eram quebradas, a vida passa de forma diferente. Jaci (a Lua) e Coaraci (o Sol) convivem em harmonia provendo as necessidades dos seres vivos, criando profundo equilíbrio no ambiente. Este mundo extraordinário é chamado Iaça. A natureza é a força presente no mundo e o espírito dos índios, juntamente com as criaturas lendárias, sustentam a paisagem, mesmo diante de forças que lutam para desequilibrar através do controle de recursos indispensáveis a vida de seus habitantes, como a água. Em Iaça, os curupiras são os guardiões dos segredos do mundo, guardam informações a sete chaves, os índios senhores da natureza, homens brancos visionários de uma nova ordem, em constante conflito com os Espíritos da Iaça por trazerem o progresso a uma terra misteriosa, virgem e cheia de tradições. Mistérios rondam a terra de Iaça, locais onde chove sem parar, índios com forças extraordinárias, locais escondidos a tempos em meio aos rios repletos de seres curiosos com suas margens repletas de vida. É difícil encontrar uma passagem da Terra para Iaça, mas o mesmo não ocorre de lá para cá, vários seres encantados nos visitaram ao longo da História e ainda nos visitam. Na Terra sinais destes visitantes encontram-se desenhados em cavernas ao redor do mundo e, sobretudo na Amazônia. Estes sinais são estudados por cientistas que buscam explicações para os achados, tentando compreender o que significam e qual a importância para a Terra. Um dos cientistas incansáveis na busca desses sinais é o arqueólogo Martins Pereira. Ele viaja o Brasil inteiro, sobretudo, o Estado do Pará, catalogando as ricas informações encontradas nas cavernas e rochas. Katú conseguiu retornar para contar a história que hoje repasso a você, leitor. Esse foi o desejo de compartilhar essa aventura com pessoas que acreditam em um mundo cheio de desafios e maravilhas. Anotou muito e aproveitou para desenhar tudo o que via. Muitos de seus desenhos sobre as paisagens, pessoas e criaturas que encontrou estão presentes neste livro e outros estão guardados a sete chaves. Embarque com Eduardo Katú nas Crônicas de Iaça. Enfrente com o nosso herói o temível Mapinguari, monstro amazônico de um olho só, com a mandíbula no meio da barriga, que esmaga guerreiros e caçadores e faz a terra tremer por onde caminha.
Aprenda sobre os conhecimentos antigos dos índios de Óka, conheça a força da magia dos curupiras, encontre seres encantados submersos nos rios e cante vitória quando a batalha acabar.
Reviva com o escoteiro, a trilha percorrida, explore e sinta o cheiro molhado das matas e cavernas que escondem os mais variados segredos. Este é o meu convite para você, querido leitor. Então, vamos começar...
"Quando um escoteiro acampa, quatro coisas são indispensáveis, o bastão, o lenço, o cantil e o coração". Tony Mendes - Chefe Escoteiro.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Narrativas Fantásticas - Tatuí,SP


Publicado em 22/10/2012
Noivas de Maio. Curta Metragem feito no projeto Narrativas Fantásticas da Oficina Grande Otelo-Sorocaba/SP. Grupo de Tatuí. Realização da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, apoio: Prefeitura Municipal de Tatuí, Museu do Tropeiro de Boituva. Agradecimentos especiais a Mason Williams e Carlos Barbosa Lima pelas músicas gentilmente cedidas. Versão Provisória do Curta.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A origem do Dia das Mães


A mais antiga comemoração dos dias das mães é mitológica. Na Grécia antiga, a entrada da primavera era festejada em honra de Rhea, a Mãe dos Deuses.
O próximo registro está no início do século XVII, quando a Inglaterra começou a dedicar o quarto domingo da Quaresma às mães das operárias inglesas. Nesse dia, as trabalhadoras tinham folga para ficar em casa com as mães. Era chamado de "Mothering Day", fato que deu origem ao "mothering cake", um bolo para as mães que tornaria o dia ainda mais festivo.
Nos Estados Unidos, as primeiras sugestões em prol da criação de uma data para a celebração das mães foi dada em 1872 pela escritora Júlia Ward Howe, autora de "O Hino de Batalha da República".
Mas foi outra americana, Ana Jarvis, no Estado da Virgínia Ocidental, que iniciou a campanha para instituir o Dia das Mães. Em 1905 Ana, filha de pastores, perdeu sua mãe e entrou em grande depressão. Preocupadas com aquele sofrimento, algumas amigas tiveram a idéia de perpetuar a memória de sua mãe com uma festa. Ana quis que a festa fosse estendida a todas as mães, vivas ou mortas, com um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem suas mães. A idéia era fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.
Durante três anos seguidos, Anna lutou para que fosse criado o Dia das Mães. A primeira celebração oficial aconteceu somente em 26 de abril de 1910, quando o governador de Virgínia Ocidental, William E. Glasscock, incorporou o Dia das Mães ao calendário de datas comemorativas daquele estado. Rapidamente, outros estados norte-americanos aderiram à comemoração.
Finalmente, em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1913-1921), unificou a celebração em todos os estados, estabelecendo que o Dia Nacional das Mães deveria ser comemorado sempre no segundo domingo de maio. A sugestão foi da própria Anna Jarvis. Em breve tempo, mais de 40 países adotaram a data.
"Não criei o dia das mães para ter lucro"
O sonho foi realizado, mas, ironicamente, o Dia das Mães se tornou uma data triste para Anna Jarvis. A popularidade do feriado fez com que a data se tornasse uma dia lucrativo para os comerciantes, principalmente para os que vendiam cravos brancos, flor que simboliza a maternidade. "Não criei o dia as mães para ter lucro", disse furiosa a um repórter, em 1923. Nesta mesmo ano, ela entrou com um processo para cancelar o Dia das Mães, sem sucesso.
Anna passou praticamente toda a vida lutando para que as pessoas reconhecessem a importância das mães. Na maioria das ocasiões, utilizava o próprio dinheiro para levar a causa a diante. Dizia que as pessoas não agradecem freqüentemente o amor que recebem de suas mães. "O amor de uma mãe é diariamente novo", afirmou certa vez. Anna morreu em 1948, aos 84 anos. Recebeu cartões comemorativos vindos do mundo todos, por anos seguidos, mas nunca chegou a ser mãe.
Cravos: símbolo da maternidade
Durante a primeira missa das mães, Anna enviou 500 cravos brancos, escolhidos por ela, para a igreja de Grafton. Em um telegrama para a congregação, ela declarou que todos deveriam receber a flor. As mães, em memória do dia, deveriam ganhar dois cravos. Para Anna, a brancura do cravo simbolizava pureza, fidelidade, amor, caridade e beleza. Durante os anos, Anna enviou mais de 10 mil cravos para a igreja, com o mesmo propósito. Os cravos passaram, posteriormente, a ser comercializados.
No Brasil
O primeiro Dia das Mães brasileiro foi promovido pela Associação Cristã de Moços de Porto Alegre, no dia 12 de maio de 1918. Em 1932, o então presidente Getúlio Vargas oficializou a data no segundo domingo de maio. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, determinou que essa data fizesse parte também no calendário oficial da Igreja Católica.


Texto compilado das seguintes fontes
- Pesquisa de Daniela Bertocchi Seawright para o site Terra,
http://www.terra.com.br/diadasmaes/odia.htm
Fontes / Imagens:
· Norman F. Kendall, Mothers Day, A History of its Founding and its Founder, 1937.
· Main Street Mom
· West Virginia Oficial Site
- O Guia dos Curiosos - Marcelo Duarte. Cia da Letras, S.P., 1995.
- Revista Vtrine - artigo - Abril, S.P., 1999

Dia das Mães